quinta-feira, 18 de março de 2010

33. O diabo sabe, não porque é sábio. O diabo sabe porque é velho


Eu conheci uma pessoa que, apesar da pouca idade, possuía uma grande sabedoria de vida. Conhecimentos que ela fazia questão de transmitir a todos que se aproximavam dela. Eu a admirava demais, não apenas pela sabedoria, mas também por esse desprendimento. Porém, nem todos percebiam esta atitude como algo grandioso. Algumas pessoas a consideravam pretensiosa e “metida a sabichona”. Um certo dia, quando mais uma vez eu elogiava sua sabedoria (pois este era um comportamento que eu nunca cansava de ter), ela saiu com esta: “O diabo não sabe porque é sábio. O diabo sabe porque é velho”.

Não entendi o que aquele provérbio tinha a ver com a nossa conversa, mas ela prontamente explicou-me: “você vive a elogiar-me pelos meus conhecimentos sobre a vida, mas eu sou como o diabo, não sou sábia, sou velha”. Estranhei aquela explicação e lhe disse que ela estava no auge da sua juventude (tinha apenas vinte e cinco anos). Ao que ela argumentou: “não é o meu corpo que é velho, é a minha alma”. E continuou: “eu tenho uma hipótese sobre as pessoas que, naturalmente, possuem um conhecimento maior sobre as “Leis Universais”. Para mim, os seres foram criados em momentos diferentes. Assim, os que foram criados primeiro, e logicamente são mais velhos, possuem mais conhecimentos, uma vez que já experienciaram mais coisas”.

Brinquei dizendo que, “sabiamente”, ela havia encontrado uma maneira de pensar que a impediria de cair na armadilha do orgulho e da prepotência, que é o grande abismo das grandes almas. Ela não disse mais nada, apenas sorriu. E o seu sorriso possuía um brilho que eu só tinha o prazer de ver nos seus lábios.

Os anos se passaram e a vida nos afastou. Quando voltei a reencontrá-la percebi que alguma coisa tinha mudado. Seu brilho não era mais o mesmo. Porém, o prazer de estar ao seu lado demostrava-me que a sua energia continuava igual ou até melhor. Expus os meus sentimentos e ela então me contou a seguinte estória:

“Era uma vez um diamante que vivia no mundo a brilhar intensamente. Brilhava muito, mas não desejava com isso ofuscar o brilho dos outros seres. Na verdade, queria incentivar todos para que desejassem e conseguissem brilhar tanto quanto ele. Dizem, no entanto, que luz demais cega aqueles que estão acostumados à escuridão. E foi isso que aconteceu: as pessoas ficaram cegas e pisaram tanto no diamante, que ele se reduziu a pó. Porém, restou dele um pedacinho maior, do tamanho de um grão de areia. Esse grãozinho de areia resolveu, então, esconder-se dentro de uma concha, a fim de proteger-se. Ficou ali durante anos, séculos talvez. Até perdeu a noção de tempo! Mas não perdeu a noção de si mesmo. Cresceu e transformou-se! Já não brilhava tanto. E não desejava mostrar seu brilho ao mundo. Quem desejasse vê-lo teria que esforçar-se para abrir a sua concha, a fim de conviver com a sua beleza. O diamante tinha se transformado em uma pérola.”

Ao ouvir o relato, percebi imediatamente que minha amiga estava falando de sua própria vida. E a admirei ainda mais, pois o tempo tinha realmente aumentado o seu cabedal de sabedoria. Ela aprendeu a mensagem de Cristo: “Não jogue pérolas aos porcos”. E descobriu que o seu saber, assim como pérolas, não deveria ser jogado aos “porcos”.


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